Como evoluiu a dívida pública em Portugal nos últimos 25 anos?
Nos últimos 25 anos, a dívida pública portuguesa aumentou em termos nominais. O crescimento foi particularmente acentuado entre 2008 e 2012, período marcado pela crise financeira internacional e pela subsequente crise das dívidas soberanas na Europa.
A crise financeira de 2008 agravou a situação económica do país. As intervenções públicas de apoio ao sistema financeiro, os efeitos da recessão e as medidas de estímulo à atividade económica refletiram-se num aumento da dívida.
Em 2011, no contexto da crise das dívidas soberanas, Portugal solicitou assistência financeira externa através do Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF). Nesse ano, a dívida pública atingiu 201 mil milhões de euros.
Em 2025, a dívida pública ascendeu a 275,1 mil milhões de euros, mais 4,2 mil milhões de euros do que em 2024.
Dívida pública
Fonte: Banco de Portugal
Para avaliar o peso da dívida pública na economia, é comum utilizar-se a dívida pública em percentagem do produto interno bruto (PIB).
Em 2002, este rácio era de 60% do PIB, o valor de referência estabelecido pelo Tratado de Maastricht.
Com a crise financeira de 2008 e a crise das dívidas soberanas na Europa, a partir de 2010, a dívida pública aumentou e ultrapassou, pela primeira vez, em 2011, os 100% do PIB.
A partir de 2016, este indicador iniciou uma trajetória de descida, interrompida apenas em 2020. Nesse ano, no contexto da pandemia de COVID-19, o rácio da dívida pública aumentou 18 pontos percentuais (pp), para 134,1% do PIB, o valor mais elevado dos últimos 25 anos. Esta evolução refletiu, entre outros fatores, as medidas de apoio à economia no contexto da pandemia, a acumulação de liquidez por parte das administrações públicas e o impacto da contração da atividade económica.
No final de 2025, a dívida pública representava 89,7% do PIB.
Dívida pública em percentagem do PIB
Fonte: Banco de Portugal
A dívida pública em percentagem do PIB pode variar devido à evolução da própria dívida, do PIB, ou de ambos.
Nos últimos 25 anos, destacam-se dois períodos. Até 2014, com exceção de 2000 e 2007, o aumento do rácio resultou sobretudo do crescimento da dívida pública. Entre 2015 e 2025, com exceção de 2020, a redução do rácio deveu-se principalmente ao crescimento do PIB.
Em 2025, o rácio da dívida diminuiu porque o crescimento do PIB mais do que compensou o acréscimo da dívida pública.
Fonte: Banco de Portugal
Qual foi o contributo de cada subsetor das administrações públicas para a dívida pública?
Em Portugal, as administrações públicas dividem-se em três subsetores A administração central atua em todo o território nacional e inclui, por exemplo, os ministérios e os serviços centrais do Estado, excluindo a segurança social. A administração regional e local atua apenas em parte do território e inclui as regiões autónomas, os municípios e as freguesias (exceto os centros locais da segurança social). Os fundos da segurança social são responsáveis pelo pagamento de pensões, subsídios e outras prestações sociais. : administração central, administração regional e local, e fundos da segurança social.
Fonte: Banco de Portugal
A administração central concentra a quase totalidade da dívida pública, representando entre 94% e 96% do total.
A dívida da administração regional e local atingiu o valor mais elevado em 2008: representava 6,4% da dívida pública total. A partir desse ano, o seu peso diminuiu, situando-se 3,8% nos anos mais recentes.
A composição da dívida neste subsetor também se alterou. O peso das administrações regionais dos Açores e da Madeira aumentou de 30,4%, em 2000, para 72,9% em 2025. Pelo contrário, o peso da administração local diminuiu, representando, em 2025, 27,1% da dívida conjunta da administração regional e local.
Fonte: Banco de Portugal
Qual é a composição da dívida pública por instrumento?
Ao longo de todo o período, as administrações públicas financiaram-se sobretudo através da emissão de títulos de dívida, como obrigações e bilhetes do Tesouro. Em 2000, estes títulos representavam 71% da dívida pública, enquanto o numerário e depósitos correspondia a 20% e os empréstimos a 9%.
Fonte: Banco de Portugal
Na década de 2000, a estrutura da dívida praticamente não se alterou. Em 2010, o peso dos títulos de dívida e dos empréstimos no total da dívida tinha aumentado ligeiramente, e o peso do numerário e depósitos tinha-se reduzido.
Entre 2011 e 2014, a composição alterou-se de forma significativa. Os empréstimos aumentaram expressivamente no contexto do financiamento do PAEF, chegando a ultrapassar 40% da dívida pública total. Em sentido inverso, o peso dos títulos caiu para menos de metade.
A partir de 2015, a tendência inverteu-se. Os empréstimos voltaram a perder peso, e os títulos de dívida recuperaram importância, à medida que o financiamento do PAEF foi substituído pelo regresso aos mercados.
Nos anos mais recentes, o numerário e depósitos voltou a ganhar relevância, refletindo o aumento das aplicações das famílias em certificados do Tesouro e, sobretudo a partir de 2022, em certificados de aforro.
Em 2025, os títulos continuavam a dominar a estrutura da dívida pública, representando 58% do total, entre os quais 51% correspondiam a obrigações do Tesouro, 3% a bilhetes do Tesouro e 2% a títulos emitidos pelas Regiões Autónomas.
Os empréstimos representavam 24% do total da dívida, provenientes sobretudo de instrumentos europeus, nomeadamente 9% do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), 7% do Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF), 2% do Programa SURE (Support to mitigate Unemployment Risks in an Emergency) e 1% do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
O numerário e depósitos representava 18% do total (15% certificados de aforro e 3% certificados do Tesouro).
Em comparação com o período pré-crise, a estrutura da dívida pública encontrava-se, no final de 2025, menos concentrada em títulos de dívida e mais em empréstimos.
Fonte: Banco de Portugal
Quem detém a dívida pública portuguesa?
Os principais detentores da dívida pública portuguesa são o Banco de Portugal, os bancos, as famílias, as seguradoras e fundos de pensões, e os investidores não residentes.
Ao longo dos últimos 25 anos, o peso relativo destes grupos foi variando. Durante a crise das dívidas soberanas e nos anos seguintes, os empréstimos oficiais, primeiro através do PAEF e mais recentemente do Programa SURE e do PRR, contribuíram para aumentar o peso dos investidores não residentes.
O setor bancário residente reforçou igualmente a sua posição. O mesmo aconteceu com o Banco de Portugal, sobretudo através da aquisição de títulos no âmbito dos programas de compra de dívida pública do Eurosistema.
As famílias mantiveram-se relevantes, sobretudo através da subscrição de instrumentos de poupança emitidos pelo Estado, como os certificados de aforro e os certificados do Tesouro.
No final de 2025, os investidores não residentes detinham 47% do total da dívida pública portuguesa, dos quais 19% correspondiam a empréstimos oficiais europeus no âmbito do SURE, do PRR, do FEEF e do MEEF. O Banco de Portugal e os bancos residentes detinham 22% e 10%, respetivamente, e as famílias 18%.
Fonte: Banco de Portugal
Qual é a maturidade da dívida pública?
A maturidade residual da dívida corresponde ao tempo que falta até ao seu reembolso. Este indicador permite avaliar o momento de vencimento da dívida e o grau de exposição a necessidades de refinanciamento no curto prazo.
Após a crise das dívidas soberanas, verificou-se um aumento da maturidade residual da dívida pública portuguesa. Desde 2012, a dívida com maturidade residual superior a cinco anos passou a representar mais de metade do total.
Fonte: Banco de Portugal
No final de 2025, quase metade da dívida pública tinha um prazo residual superior a cinco anos. A restante distribuía-se de forma similar entre maturidades até um ano e entre um e cinco anos.
Fonte: Banco de Portugal
A maturidade residual média da dívida pública, isto é, o prazo médio remanescente até ao vencimento da dívida, ponderado pelo montante de cada instrumento, tem-se mantido relativamente estável na última década, após a maior volatilidade observada no início dos anos de 2010. Em 2025 situou-se em 6 anos e 8 meses, refletindo uma estratégia de financiamento assente em emissões de maior prazo.
Maturidade residual média da dívida pública
Fonte: Banco de Portugal
Qual é o custo da dívida pública?
O custo aparente da dívida corresponde à despesa com juros acumulada no ano, em percentagem da dívida média nesse período. Este indicador reflete as condições de financiamento ao longo do tempo, influenciadas pelas taxas de juro e pela perceção de risco. A estrutura de maturidades da dívida condiciona também a evolução deste indicador, uma vez que maturidades mais longas tornam a despesa com juros menos sensível às variações das taxas de juro de mercado no curto prazo.
Nos últimos 25 anos, o custo aparente da dívida diminuiu de 5,8%, em 2000, para 2,3% em 2025. Esta trajetória foi interrompida apenas em três momentos: entre 2006 e 2008; em 2011, no contexto da crise das dívidas soberanas; e, mais recentemente, em 2023 e 2024, num período de subida das taxas de juro.
Fonte: Banco de Portugal