Os rendimentos pagos ao exterior reduzem a capacidade de financiamento da economia portuguesa
As empresas com investimento direto estrangeiro remuneram o capital investido por acionistas não residentes. Estes pagamentos são registados como “rendimentos pagos ao exterior” e, entre 2015 e 2025, corresponderam, em média, a 4% do PIB.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Por serem pagos ao exterior, estes rendimentos contribuem para reduzir a capacidade de financiamento da economia portuguesa perante o resto do mundo.
Têm peso relevante nas exportações, mas importam mais do que exportam
As empresas com investimento direto estrangeiro também têm impacto nas contas externas por via do seu contributo para as exportações e importações de bens e serviços do país.
No caso de Portugal, as empresas com investimento direto estrangeiro têm um peso relevante nas exportaçõesNesta análise, o saldo da componente de viagens e turismo não é desagregado entre empresas com e sem investimento direto estrangeiro, uma vez que o processo de compilação desta rubrica não permite essa distinção. . Entre 2015 e 2025, foram responsáveis, em média, por 44% das exportações de bens e serviços, o equivalente a 19% do PIB.
No entanto, estas empresas também tiveram um peso significativo nas importações. No mesmo período, representavam, em média, 55% das importações de bens e serviços, o correspondente a 24% do PIB.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Como importaram mais do que exportaram, entre 2015 e 2025, apresentaram sempre um saldo negativo na balança comercial. Em média, esse saldo correspondeu a -4,6% do PIB. Nas empresas sem investimento direto, o saldo ficou próximo do equilíbrio, em cerca de -0,4% do PIB.
O impacto das empresas de investimento direto no saldo da balança comercial é, assim, mais significativo, apesar de representarem, em média, apenas cerca de 20% das empresas consideradas ao longo do período analisado.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Nos bens, importam mais do que exportam. Nos serviços, aconteceu o contrário
O comportamento das empresas com investimento direto estrangeiro é diferente na balança de bens e na balança de serviços.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Na balança de bens, importaram mais do que exportaram ao longo de todo o período analisado. Este saldo negativo foi mais acentuado do que o observado nas empresas sem investimento direto estrangeiro.
Na balança de serviços, verificou-se o contrário. Tanto as empresas com investimento direto estrangeiro como as restantes empresas apresentaram saldos positivos, ou seja, exportaram mais serviços do que importaram. No caso das empresas com investimento direto estrangeiro, o saldo positivo tornou-se particularmente relevante nos anos mais recentes.
O setor de atividade ajuda a explicar as diferenças
A análise por setor de atividade mostra que o comportamento das empresas varia consoante a atividade que desenvolvem.
No setor da indústria, tanto as empresas com investimento direto estrangeiro como as restantes empresas apresentaram saldos positivos na balança de bens. Ainda assim, as empresas com investimento direto estrangeiro registaram, em média, saldos superiores em 0,8 pontos percentuais do PIB, o que aponta para uma maior orientação exportadora.
No setor do comércio, o saldo foi sempre negativo nos dois grupos de empresas. Este resultado é consistente com uma atividade mais assente na importação de bens para venda no mercado interno. O padrão foi mais acentuado nas empresas com investimento direto estrangeiro, que apresentaram níveis de importação mais elevados.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Na balança de serviços, o contributo das empresas com investimento direto estrangeiro distingue-se do das restantes empresas nas atividades de consultoria, informação e comunicação e no setor dos transportes e armazenagem.
Nas atividades de consultoria, informação e comunicação, as empresas com investimento direto estrangeiro apresentaram saldos positivos mais elevados do que as restantes empresas. Este resultado reforçou o saldo positivo da balança de serviços, sobretudo a partir de 2020, acompanhando o crescimento destas atividades.
No setor dos transportes e armazenagem, aconteceu o contrário. Apesar de ambos os grupos registarem igualmente saldos positivos, o saldo foi mais elevado nas empresas sem investimento direto estrangeiro. Neste setor, foram as empresas sem investimento direto estrangeiro que mais contribuíram para a capacidade de financiamento de Portugal perante o exterior.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
O impacto das empresas com investimento direto estrangeiro nas contas externas depende da dimensão de análise
O papel das empresas de investimento direto na economia portuguesa é relevante, mas não pode ser interpretado de forma linear. Para compreender o impacto destas empresas nas contas externas portuguesas, é necessário analisar o seu efeito por via dos rendimentos pagos ao exterior e das exportações e importações de bens e de serviços, bem como as diferenças entre setores de atividade.
Desta análise conclui-se que as empresas com investimento direto estrangeiro têm um impacto relevante, embora heterogéneo nas contas externas: contribuem significativamente para as exportações, mas apresentam, em termos líquidos, um saldo comercial negativo e, para além disso, reduzem a capacidade de financiamento da economia através dos rendimentos pagos ao exterior. No entanto, o setor em que operam influencia o seu peso nas exportações e nas importações de bens e serviços: o setor da indústria exporta mais do que importa, e observa-se o contrário para o setor do comércio.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística