As famílias terminaram 2025 com uma posição financeira mais robusta
Entre 2005 e 2025, o património financeiro líquido das famílias aumentou de 172 mil milhões de euros para 402 mil milhões de euros. Em percentagem do PIB, passou de 108% para 131%.
Este rácio atingiu o valor mais elevado em 2021, quando ascendeu a 146% do PIB, no contexto da pandemia de COVID-19, marcado tanto pelo aumento da poupança, como pela contração da atividade económica. Nos anos seguintes, o património financeiro líquido em percentagem do PIB diminuiu, acompanhando a recuperação da economia.
A evolução das últimas duas décadas resulta de dois movimentos: Por um lado, os ativos financeiros mantiveram-se em níveis elevados, atingindo 194% do PIB em 2025. Por outro lado, os passivos diminuíram de 84% para 63% do PIB.
Esta alteração tornou mais favorável a relação entre ativos e passivos. Em 2005, os ativos financeiros das famílias correspondiam a cerca de 2,2 vezes o valor dos passivos. Em 2025, passaram a representar cerca de três vezes esse valor.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
A dívida passou a pesar menos na economia
A melhoria da posição financeira das famílias está muito associada à redução do peso da dívida na economia.
Os empréstimos às famílias representavam cerca de 80% do PIB em 2005 e atingiram um máximo de 91% em 2009. A partir desse ano, este rácio seguiu uma trajetória de descida, interrompida apenas em 2020, no contexto da pandemia, e em 2025, quando registou um ligeiro aumento em relação ao ano anterior, situando-se em 53% do PIB.
Esta redução não significa que as famílias tenham deixado de recorrer ao crédito. Em termos nominais, ou seja, considerando o valor em euros, o montante total de empréstimos atingiu cerca de 164 mil milhões de euros em 2025, o valor mais elevado da série. O que mudou foi a relação entre esse montante e a dimensão da economia: o PIB nominal cresceu mais rapidamente do que o crédito concedido às famílias.
Ao longo deste período, os bancos também retiraram dos seus balanços empréstimos considerados irrecuperáveis. No conjunto dos últimos 20 anos, estes abatimentos corresponderam a cerca de 5% do PIB e concentraram-se sobretudo em 2018 e 2019.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Os depósitos mantêm-se como principal aplicação financeira
Os depósitos continuam a ocupar um lugar central nos ativos financeiros das famílias portuguesas.
Em 2025, o numerário e os depósitos representavam 44% do total dos ativos financeiros das famílias, acima dos 39% observados em 2005. Em percentagem do PIB, correspondiam a 86%, comparativamente com 73% em 2005.
Os bancos continuavam a concentrar a maior parte dos depósitos das famílias, com 77% do total em 2025, em comparação com cerca de 81% em 2005. As aplicações junto das administrações públicas, que incluem os certificados de aforro e os certificados do Tesouro, representavam cerca de 18%, enquanto os depósitos no exterior correspondiam aos restantes 4% (em 2005, estas percentagens eram de 14% e 5%, respetivamente).
Embora os certificados de aforro e os Certificados do Tesouro não sejam depósitos bancários, são classificados na mesma categoria estatística devido às suas características, nomeadamente à elevada liquidez e ao baixo risco.
Em 2023, as aplicações junto das administrações públicas ganharam peso, refletindo o aumento das subscrições de certificados de aforro. Esta evolução coincidiu com a subida das taxas de juro, que aumentou a remuneração destes instrumentos e reforçou a sua atratividade junto das famílias.
Fonte: Banco de Portugal
Como é que as taxas de juro influenciaram o património financeiro das famílias nos últimos anos?
As famílias portuguesas tendem a privilegiar aplicações de baixo risco, como os depósitos bancários e os certificados de aforro, que são remunerados através de juros. No caso dos depósitos, a remuneração depende da taxa acordada entre o cliente e o banco. Nos certificados de aforro, depende da fórmula definida para cada série, que, nas séries mais recentes, está associada à evolução da Euribor a três meses.
Como a remuneração dos certificados de aforro está diretamente indexada às taxas de juro de curto prazo, este produto incorpora rapidamente as alterações da política monetária. Assim, a subida das taxas diretoras do Banco Central Europeu (BCE), iniciada em 2022, favoreceu o aumento da procura por esta forma de poupança.
As taxas de juro afetam também a valorização de outros ativos financeiros. Em 2022, a sua subida contribuiu para a desvalorização de instrumentos financeiros negociados em mercado cujo preço é sensível às taxas de juro, nomeadamente títulos de dívida e unidades de participação em fundos de investimento com exposição a esses títulos. Nos anos seguintes, a estabilização e posterior descida das taxas favoreceram a recuperação do valor destes ativos.
Além disso, as taxas de juro afetam o recurso ao crédito. O predomínio da taxa variável no crédito à habitação, especialmente nos contratos celebrados até 2023, levou a um aumento rápido das prestações no contexto de subida das taxas de juro iniciado em 2022. Esta evolução incentivou as famílias a realizar amortizações antecipadas e contribuiu para diminuir a procura de novo crédito, favorecendo a redução do endividamento das famílias em 2023.
O património financeiro tornou-se mais diversificado
Embora os depósitos continuem a ser a principal aplicação financeira das famílias, a composição dos seus ativos financeiros tornou-se mais diversificada.
As participações no capital de empresas e as unidades de participação em fundos de investimento passaram de cerca de 30% do total dos ativos financeiros em 2005 para quase 40% em 2025. Em percentagem do PIB, aumentaram de 60% para 77%.
Esta evolução reflete dois movimentos. Por um lado, o crescimento das participações detidas pelas famílias em empresas não cotadas em bolsa, incluindo empresas familiares. Por outro, a afirmação dos fundos de investimento como uma das principais formas de participação das famílias nos mercados de capitais.
Nos anos mais recentes, os fundos de investimento receberam uma parte significativa das novas aplicações das famílias em instrumentos financeiros de mercado. Como consequência, uma parcela crescente do património financeiro das famílias passou a estar exposta às oscilações dos preços nos mercados financeiros.
Em sentido contrário, os seguros e os fundos de pensões perderam importância relativa. Em 2005, representavam 20% dos ativos financeiros das famílias; em 2025, essa percentagem situava-se em cerca de 11%. Em percentagem do PIB, o seu peso diminuiu de 38% para 21%.
Esta redução não significa que estas aplicações tenham desaparecido ou deixado de ser relevantes. O seu valor manteve-se significativo, mas cresceu menos do que o conjunto dos ativos financeiros das famílias e do que a própria economia. Para esta evolução contribuíram também as transferências pontuais de fundos de pensões para os sistemas públicos de pensões, realizadas no início das décadas de 2010 e de 2020.
Fonte: Banco de Portugal
As novas aplicações e a valorização dos ativos contribuíram para o aumento do património
A evolução do património financeiro líquido das famílias não depende apenas do montante dos ativos financeiros e dos passivos acumulados em cada momento. Depende também das novas aplicações financeiras, da variação das dívidas e das alterações no valor dos ativos que já detêm.
Quando, no seu conjunto, as famílias aplicam em ativos financeiros um montante superior ao aumento das suas dívidas, apresentam capacidade de financiamento. Pelo contrário, quando o aumento das dívidas supera as novas aplicações financeiras, apresentam necessidade de financiamento.
Na maior parte dos últimos 20 anos, as famílias registaram capacidade de financiamento. As exceções foram 2007 e 2008, anos marcados por um maior recurso ao crédito.
A capacidade de financiamento foi particularmente elevada em 2009, em 2012 e 2013, em 2020 e 2021 e, mais recentemente, em 2024 e 2025.
Em 2020 e 2021, este resultado refletiu sobretudo o aumento da poupança durante a pandemia, num contexto de forte redução das oportunidades de consumo. Em 2024 e 2025, foi favorecido pelo crescimento do rendimento disponível, associado ao aumento do emprego e dos salários.
Fonte: Banco de Portugal e Instituto Nacional de Estatística
Além das novas aplicações, o património financeiro é influenciado pela valorização ou desvalorização dos ativos detidos pelas famílias.
Uma parte destes ativos corresponde a instrumentos cujo valor varia em função da evolução dos mercados financeiros, como unidades de participação em fundos de investimento, ações cotadas em bolsa e títulos de dívida. Assim, o património pode aumentar não apenas porque as famílias efetuaram novas aplicações, mas também porque os ativos que já detinham se valorizaram. Em períodos de queda dos mercados, pode ocorrer o movimento inverso.
Entre 2005 e 2018, a evolução da carteira de títulos foi marcada sobretudo por variações de preço negativas, refletindo o impacto da crise financeira internacional e da crise da dívida soberana. Neste período, as famílias desinvestiram, em termos líquidos, 7,7 mil milhões de euros nestes ativos e registaram desvalorizações de 12 mil milhões de euros.
A partir de 2019, o movimento inverteu-se. As aquisições líquidas, isto é, novas aplicações deduzidas dos desinvestimentos, ascenderam a 14,8 mil milhões de euros, enquanto a valorização dos ativos atingiu cerca de 10 mil milhões de euros. Estes dois efeitos, ao reforçarem-se mutuamente, contribuíram para o crescimento da carteira de ativos financeiros das famílias.
Fonte: Banco de Portugal
Um património financeiro maior e com outra composição
Vinte anos depois, o balanço financeiro das famílias portuguesas é não só maior, mas também diferente.
O património financeiro líquido mais do que duplicou. O valor dos ativos financeiros aumentou em relação ao dos passivos e a dívida perdeu peso na economia. Embora os depósitos continuem a ser a principal aplicação financeira, as participações no capital de empresas e as unidades de participação em fundos de investimento assumem hoje uma maior importância.
A principal mudança não se observa, por isso, apenas no valor do património financeiro líquido das famílias, mas também na sua composição. O balanço financeiro das famílias tornou-se menos condicionado pelo peso da dívida e mais influenciado pela forma como as poupanças estão aplicadas e pela evolução dos mercados financeiros.
Ainda assim, em comparação com a área do euro, a composição dos ativos financeiros das famílias portuguesas continua a revelar uma maior concentração em numerário e depósitos. Em 2025, estes instrumentos, incluindo os certificados de aforro e os certificados do Tesouro, representavam 44% dos ativos financeiros das famílias em Portugal, comparativamente com 31% na área do euro.
Em contrapartida, os seguros e os fundos de pensões tinham menor peso em Portugal: 11%, relativamente a 26% na área do euro. Também os instrumentos mais diretamente ligados aos mercados financeiros tinham uma expressão mais reduzida. Os títulos de dívida, as unidades de participação em fundos de investimento e as participações no capital de empresas cotadas representavam, em conjunto, 10% dos ativos financeiros das famílias portuguesas, enquanto na área do euro esse valor era de 19%.
Esta comparação ajuda a enquadrar a evolução observada em Portugal. As aplicações financeiras das famílias tornaram-se mais diversificadas ao longo dos últimos 20 anos, mas continuam mais concentradas em instrumentos líquidos e menos expostos às oscilações dos mercados financeiros do que na área do euro.
O património financeiro das famílias portuguesas aumentou e tornou-se mais diversificado ao longo dos últimos 20 anos, embora continue relativamente concentrado em instrumentos de baixo risco.