Durante muitos anos, Portugal precisou de financiamento do exterior, mas atualmente, a situação é diferente. Nas últimas décadas, a economia portuguesa passou de défices externos persistentes para um contexto de excedentes externos.

Quando o saldo das contas externas é positivo, significa que o país tem capacidade de financiamentoSituação em que o país gera recursos suficientes para financiar o exterior ou reduzir dívida. em relação ao exterior, podendo reduzir a dívida externa ou acumular ativos financeiros. Quando é negativo, o país necessita de financiamento externo, o que se traduz num aumento da dívida ou numa diminuição de ativos financeiros.

Esta leitura é dada pelo saldo das balanças corrente e de capital, que regista a vertente real das transações económicas entre residentes e não residentes. A vertente financeira destas transações é registada na balança financeiraMostra como evoluem os ativos financeiros e passivos do país face ao exterior., a outra componente da balança de pagamentos. Ao longo dos últimos 30 anos, as contas externas portuguesas evidenciam uma mudança estrutural no padrão de relacionamento da economia portuguesa com o exterior:

A inversão aconteceu em 2012, ano em que se registou o primeiro saldo positivo das balanças corrente e de capital, equivalente a 0,6% do PIB. Em 2024, esse saldo atingiu o valor mais elevado da série: 3,3% do PIB.

O saldo externoDiferença entre o que o país recebe e paga nas suas relações económicas com o exterior. reflete o comportamento, relativamente persistente, de várias componentes. Na economia portuguesa, as balanças de bens e de rendimento primárioInclui rendimentos ligados ao trabalho e ao capital, como salários, juros e dividendos. tendem a apresentar saldos negativos, enquanto as balanças de serviços, de rendimento secundárioInclui transferências correntes, como remessas de emigrantes, prestações sociais ou contribuições para a União Europeia. e de balança de capitalRegista transferências para investimento, como fundos europeus. registam, em geral, saldos positivos.

Evolução do saldo das balanças corrente e de capital | Percentagem do PIB

Fonte: Banco de Portugal

A balança comercial foi o principal motor dos excedentes externos

A balança comercialDiferença entre exportações e importações de bens e serviços. desempenhou um papel determinante na evolução do saldo das balanças corrente e de capital. Até 2010, essa influência refletiu-se sobretudo através do défice da balança de bens, enquanto o saldo da balança de serviços se manteve mais estável.

Em 2008, ano em que o saldo externo atingiu o valor mais negativo da série, a balança de bens registou também o seu défice mais acentuado, de -13,4% do PIB. A partir de 2011, observou-se uma melhoria dos saldos das balanças de bens e de serviços, que contribuiu para a inversão do saldo externo em 2012. Esta melhoria resultou tanto do dinamismo das exportações como de uma evolução mais contida das importações.

A balança comercial esteve, assim, no centro da mudança nas contas externas, embora não explique, por si só, essa evolução.

Fonte: Banco de Portugal

Uma economia mais aberta ao exterior

A melhoria da balança comercial ocorreu num contexto de reforço das ligações comerciais de Portugal ao exterior. O grau de abertura da economiaPeso conjunto das exportações e importações no PIB. revela uma tendência de aumento ao longo das últimas décadas, mais evidente a partir de 2009. O valor mais elevado entre 1996 e 2025 foi registado em 2022, quando o grau de abertura atingiu 101,1% do PIB. Desde então, recuou, tendo atingido 86,6% do PIB em 2025.

A evolução do grau de abertura da economia portuguesa acompanhou, em termos reais, a tendência observada na União Europeia (UE). No entanto, desde 2000, Portugal passou a apresentar um grau de abertura inferior à média da UE. Entre 1996 e 2025, este indicador cresceu 26,3 pontos percentuais em Portugal. Na UE, subiu 39,5 pontos percentuais (dados AMECO, 2025).

Fonte: Banco de Portugal e AMECO

Mas o comércio não explica tudo…

Embora a balança comercial tenha sido decisiva, a evolução das contas externas portuguesas não pode ser compreendida apenas através da análise das exportações e das importações. Os rendimentos e as transferências com o exterior também desempenham um papel relevante.

Juros e rendimentos de investimento continuaram a penalizar o saldo externo, embora menos do que no passado

No caso da balança de rendimento primário, o contributo tem sido, em regra, negativo. Com exceção de 1996, Portugal registou sempre saldos negativos nesta balança, refletindo sobretudo os rendimentos de investimento pagos ao exterior, onde se incluem os encargos com juros.

Este resultado está associado ao facto de a economia portuguesa apresentar uma posição de investimento internacionalDiferença entre os ativos financeiros que Portugal detém sobre o exterior e os passivos que o exterior detém sobre Portugal. negativa, ou seja, mais passivos externos do que ativos.

Ainda assim, nos anos mais recentes, este défice tem vindo a atenuar-se, beneficiando da redução da dívida externa e da diminuição das taxas de juro de referência.

Algumas componentes da balança de rendimento primário têm, pelo contrário, contribuído positivamente para o saldo externo, nomeadamente os subsídios recebidos do exterior, em particular associados a fundos europeus e, mais recentemente, os rendimentos de trabalho, cujo peso tem vindo a ganhar expressão.

Deste modo, embora a balança de rendimento primário continue a penalizar as contas externas, o seu impacto tem-se tornado menos desfavorável.

Fonte: Banco de Portugal

Remessas, prestações sociais e apoios europeus também contam

A balança de rendimento secundário apresentou um saldo positivo ao longo de todo o período em análise, contribuindo de forma sistemática para a melhoria das contas externas portuguesas.

Apesar de algumas quebras associadas, sobretudo, à redução das remessas recebidas de emigrantes e, em determinados períodos, ao aumento da contribuição financeira de Portugal para o orçamento da União Europeia, a trajetória mais recente tem sido de crescimento. Após atingir, em 2010, o valor mais baixo da série (0,3% do PIB), o saldo desta balança recuperou de forma gradual.

Esta evolução foi sustentada, em particular, pelo aumento das remessas, das prestações sociais recebidas do exterior (por exemplo, pensões por velhice) e, em alguns anos, pelo reforço da cooperação internacional corrente, que inclui transferências entre os governos de diferentes países, ou entre governos e organizações internacionais. Em 2021, ano em que se registou o saldo mais elevado desta componente (0,9% do PIB), a atribuição de fundos europeus teve um contributo especialmente relevante, no contexto das medidas de apoio às empresas associadas à pandemia de COVID‑19.

Fonte: Banco de Portugal

A balança de capital reforçou de forma consistente a posição externa

Também a balança de capital apresentou um saldo positivo ao longo de todo o período em análise. Entre 1996 e 2025, esse saldo correspondeu, em média, a 1,5% do PIB. Enquanto o rendimento secundário reflete, sobretudo, fluxos correntes relativamente estáveis, a balança de capital está mais associada a programas de investimento e ciclos de financiamento europeu.

A evolução desta balança é explicada, principalmente, pelo comportamento das transferências de capital, em particular das ajudas ao investimento provenientes da União Europeia. Estas transferências destinam-se, em grande medida, ao financiamento de projetos de formação de capital fixo, como infraestruturas ou iniciativas de desenvolvimento tecnológico. Em 2025, o saldo das ajudas ao investimento representou 1,4% do PIB, o equivalente a 4,2 mil milhões de euros. Mais de metade deste valor esteve associado ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Fonte: Banco de Portugal

Portugal melhorou, mas continua abaixo da média da União Europeia

Nos últimos cinco anos, a economia portuguesa registou, em média, um saldo das balanças corrente e de capital inferior ao da União Europeia. Entre 2021 e 2025, esse saldo correspondeu a 1,6% do PIB em Portugal e a 2,8% do PIB no conjunto da UE.

Ainda assim, a diferença é hoje bastante menor do que entre 2007 a 2011. Nessa altura, Portugal apresentava, em média, uma necessidade de financiamento muito expressiva em relação ao exterior, com um saldo de -8,4% do PIB, enquanto a média da UE se situava em 0,4% do PIB.

A posição relativa da economia portuguesa é, por isso, substancialmente mais favorável do que no passado, ainda que o excedente externo português permaneça abaixo da média europeia.

Fonte: Banco de Portugal, Eurostat e BCE

Da correção dos desequilíbrios à melhoria da posição financeira externa

A evolução do saldo das balanças corrente e de capital tem reflexo direto na balança financeira, que regista as transações em ativos financeiros e passivos entre residentes e não residentes.

Também aqui se distinguem dois períodos. Até 2011, a necessidade de financiamento da economia portuguesa traduziu-se em saldos negativos da balança financeira e num agravamento da posição externa do país. A partir de 2012, a capacidade de financiamento relativamente ao exterior passou a refletir-se em saldos positivos, contribuindo para uma evolução mais favorável dos ativos e passivos externos.

Esta alteração foi determinante para a melhoria da posição de investimento internacional de Portugal. Depois de vários anos de deterioração, a posição líquida perante o exterior tem vindo a recuperar, situando-se em -50,3% do PIB em 2025, em comparação com o mínimo de -124,4% do PIB registado em 2014.

Fonte: Banco de Portugal

Em conjunto, estes desenvolvimentos traduzem uma correção significativa dos desequilíbrios externos acumulados no passado e uma melhoria sustentada da posição financeira externa da economia portuguesa.

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